O oásis

O oásis

Eu preciso confessar algo pra vocês.

Eu menti.

Tá, não que eu tenha contado uma mentira.

É que de verdade eu não faço ideia da impressão que passo pra vocês por aqui.


Eu gosto muito de viajar todo ano pra fazer pesquisa. Entender comportamento, tendências, novidades… Mas ter escolhido o Japão esse ano foi por um motivo que não contei pra vocês. Desde o ano passado eu venho tentando buscar ferramentas, conhecimento, pra aprender a ter um novo estilo de vida. Será que é possível fazer o que quero e não me destruir no meio do caminho?


Cheguei em Tóquio e tudo estava perfeito. Até eu ir pra Kyoto e ter uma crise de TAG: transtorno de ansiedade generalizada. Achei que tava de boa comigo mesma, até ir pra uma cidade absurdamente silenciosa e sem estímulos. Mas aquele silêncio se tornou ensurdecedor. Quando me vi num lugar onde tinha que lidar com silêncio, tédio, rituais, previsibilidade: foi um pânico. Ali entendi a gravidade de tudo.


Liguei pra minha psicóloga do outro lado do mundo pedindo atendimento, porque eu nunca tinha passado por aquilo. E foi ali, conversando com ela, que eu percebi uma coisa que eu nunca tinha visto: todos os meus momentos off são cheios de estímulo. Eu não descanso, eu troco de barulho. E quando o barulho acabou, eu não sabia quem ficava.


Depois do Japão eu fui pra Dubai. E lá tem um lugar chamado Museu do Futuro, que é basicamente isso: o que eles imaginam, com estudo, pesquisa e tecnologia, que vai ser o mundo até 2070. O que o planeta vai precisar pra ser salvo, o que a gente vai comer, como a gente vai morar. Eu fui achando que ia ver tecnologia. E vi. Mas não foi isso que me marcou.


Um dos andares se chama Al Waha, que em árabe quer dizer oásis. A experiência é ambientada em 2071 e parte de uma premissa que eu não esperava encontrar num museu do futuro: que os maiores riscos pra saúde do mundo daqui a cinquenta anos não vão ser vírus nem guerra. Vão ser depressão, ansiedade e esgotamento causados pelo excesso de tecnologia. E aí eles construíram esse andar inteiro como antídoto. Tinha área de grounding, de energia, de meditação, de sentir o toque das mãos, de voltar a conexão com o próprio corpo. Numa das salas, várias pessoas ficavam ao redor de uma mesa e eles mostravam na prática o poder de estar na mesma frequência.


Eu chorei nessa experiência.


Porque eles usaram toda a tecnologia possível pra gente viver coisas humanas. A sensação de pisar na areia. De tocar em alguma coisa. De escutar um som. Coisas que estão absolutamente todas disponíveis na natureza, de graça, o tempo inteiro. E eu precisei de um museu do futuro, feito de coisas tecnológicas, pra perceber o impacto daquilo que eu não presto atenção.


A coisa mais louca do Museu do Futuro não foi a tecnologia. Foi a urgência de voltar a nos conectarmos com a nossa humanidade. Um lugar inteiro feito pra olhar pra frente, e o que ele diz é que a gente precisa voltar. Não existe outro caminho.


Eu saí de lá pensando que Kyoto e Dubai eram a mesma viagem. Uma me mostrou o problema e a outra me mostrou por quê. Eu fui longe procurando um novo estilo de vida e o que eu trouxe é mais simples e muito mais difícil do que eu imaginava. É aprender a ficar. No silêncio, no tédio, no corpo. E é muito, muito desafiador, porque a gente desaprendeu.


Eu ainda não sei fazer isso.


Mas tô em busca.

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