Você também não anda cansada de procurar significado em tudo?
De achar que toda coisa tem que querer dizer alguma coisa. Que todo momento carrega uma lição, que toda dor veio pra ensinar, que existe um propósito escondido esperando a gente ser inteligente o suficiente pra decifrar. Cansa. É um trabalho que não termina nunca, esse de traduzir a vida enquanto ela acontece.
Teve um tempo que eu achava que era assim que se vivia direito. Prestar atenção em tudo, tirar sentido de tudo, não deixar passar nenhum sinal. Como se a vida fosse um texto cheio de mensagens escondidas e a minha função fosse não perder nenhuma.
Aí um dia li, num livro de budismo, uma coisa simples que não me larga mais: as coisas são o que são. Quem coloca significado nelas somos nós.
Pensa numa música triste. Daquelas que aperta.
Ela não é triste. A tristeza não tá nela, tá em quem escuta. A mesma música, pra outra pessoa, num outro dia, é a coisa mais alegre do mundo. Nada mudou na música. Mudou de onde a pessoa veio quando apertou o play. A gente já chega cheio de alguma coisa, e o mundo só encosta no que já tava ali dentro.
E se for assim com uma música, é assim com quase tudo.
O sentido que a gente encontra nas coisas fala menos das coisas e mais da gente. Do lugar de onde a gente tá olhando. Do que a gente tava carregando quando aquilo chegou. Então talvez o cansaço todo venha de procurar no lugar errado. Ficar decifrando o lado de fora, quando a pergunta que importa é outra: de onde eu tô olhando isso? De que melancolia, de que medo, de que vontade eu já vinha quando isso me tocou?
Não sei se isso é uma resposta. Acho que troquei uma pergunta por outra.
Mas essa segunda parece que me deixa descansar um pouco mais.
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